01 – Felipe Lima

01 – Felipe Lima

Padre Armênio,

Me chamo Felipe Lima, tenho 35 anos, nasci na região da Vila Brasilândia numa família bem pobre do Jardim Iracema. Cresci sempre apaixonado pela Igreja Católica por influência dos meus avós. Meu pai foi sequestrado e assassinado quando eu tinha apenas três anos de vida e minha mãe não me criou.

Por volta dos meus seis, sete anos, eu já ia às ruas para vender panos de prato, presilhas, desinfetantes e diversos utensílios para o lar. Nesse período intercalava minha vida entre os estudos na Escola Estadual Cacilda Becker e a Paróquia Santa Cruz de Itaberaba. Meu sonho era ser coroinha e depois padre. Inclusive, lembro-me bem de quando o senhor ainda era seminarista e diácono!

Os anos foram passando, não fui coroinha naquela paróquia, também não fui padre e enveredei pelas lutas políticas, mas quando criança eu rodava São Paulo nos ônibus e trens para vender meus artigos e ajudar nas despesas de casa.

Um belo dia decidi ir à sede da Rádio Nove de Julho na Freguesia do Ó. Eu tinha uns 9/10 anos. Ali eu brinquei naqueles jardins, visitei a igreja e a capela, cheguei perto dos estúdios da rádio e quando menos esperava vi um homem de cabelo branquinho, perguntando o que eu estava fazendo e SE EU PRECISAVA DE ALGO. Era Dom Angélico Sândalo Bernardino. A forma amorosa com que ele se dirigiu a mim era totalmente diferente dos enormes “enquadros” que recebia da sociedade que me confundia com um possível criminoso.

Eu disse que queria água. Ele me levou até uma cozinha e me perguntou: “Além da água você tem fome?”. Confesso que eu tinha, mas fiquei com vergonha. Ele levantou-se da cadeira, foi até a geladeira e me deu uma taça com DOIS PÊSSEGOS EM CALDA COM CREME DE LEITE.

Olha só! Eu estava comendo um doce num dia comum que eu só via na noite de Natal. Eu comi aquele doce como aquela criança sedenta pela realização de um desejo.

Daquele dia em diante, em toda minha vida, EU NUNCA ME ESQUECI DE DOM ANGÉLICO.

Fui crescendo, estudando, buscando notícias dele e meu sonho era ter podido visitá-lo em vida.

Fiquei numa felicidade incrível ao revê-lo mesmo que pelos meios de comunicação de que estava firme e forte pregando o amor ao próximo, a justiça e a paz em momentos em que nosso país tanto precisava de acalento.

Consegui notícias de seu paradeiro e ele já estava com a idade bem avançada, recebendo cuidados médicos e tendo como seu fiel amigo e irmão o Padre Toninho. Sempre via que estava bem cuidado.

Com a notícia de seu falecimento, confesso que chorei, senti a perda de uma pessoa que me tratou com dignidade quando a sociedade me enxotava das portas dos comércios e das estações de trens por eu ser um eventual “trombadinha”. Doeu reencontra-lo com ele num caixão, mas marcou para sempre o semblante sereno de seu corpo que sediou uma alma simples, humana e que entregou sua vida inteira em amor ao seu próximo.

Essa foi a minha passagem com Dom Angélico que num único gesto me ensinou a ser HUMANO de verdade e ver o próximo como um irmão.

Não tenho dúvidas de que ele está junto de Deus intercedendo junto com Francisco por todos nós.

Sua benção e um forte abraço.

Felipe

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *