07 – Dom Angélico, dom de Deus
Inicío essas breves palavras com a saudação que ouvimos inúmeras vezes: Meus irmãos e minhas irmãs! Abandonemos neste momento os lamentos e entoemos um canto prazeroso e cheio de alegria, pois na temporalidade Deus derrama o seu amor e se deixa relevar através de um ato extraordinário. Este ato para nós que estamos no crepúsculo da perda e da saudade, se chama Dom Angélico Sândalo Bernardino.
Hoje, elevamos nossos pensamentos e corações ao Pai Eterno, agradecendo pela vida do nosso primeiro bispo diocesano, que aceitou por obediência, fidelidade e amor a missão proposta pela Igreja: instalar e organizar a recém-criada Diocese de Blumenau. Para Dom Angélico: “fidelidade para com Cristo é inseparável da fidelidade para com a Igreja”. Eu e muitos irmãos do clero desta diocese, viemos pra cá sem hesitar, seguindo este fiel e zeloso pastor. Quantas história e estórias, poderíamos contar e que não se caia no esquecimento: uma diocese sem infraestrutura (cúria, seminário, centro pastoral), tudo por fazer. Assim, o foi, construiu o seminário de Teologia e Menor (hoje fechados). Nós sabemos o quanto foi difícil o início do caminhar desta diocese, todo o sofrimento, as dificuldades enfrentadas. Dom Angélico foi um desbravador, nunca reclamou de nada, sempre alegre e confiante na misericórdia e na graça de Deus.
Dom angélico, ato extraordinário de Deus, perfumou nossa caminhada como a de muitos com o perfume do Sândalo, que brotava de suas homilias, dos seus ensinamentos, do seu testemunho de vida e de sua paternidade.
Ouvir Dom Angélico falar, era como estar diante do profeta Amós, que que falava com profetismo nos momentos de relativa paz e prosperidade e também nos momentos de truculências, denunciando as injustiças do seu tempo e as negligências diante das leis de Deus. Dom Angélico, falou contra a disparidade crescente entre ricos e pobres, e mostrou os invisíveis da sociedade. O tecido da vida se tornou mais alegre e belo, pois, entrou na história cristã este homem, que sempre teve uma única alegria: servir a Deus no rosto sofrido de tantos irmãos e irmãs da periferia existencial e social. Sua empatia para com todos, era refletida no trato para com as pessoas que, indistintamente tinham lugar no coração deste pastor.
Hoje, no dia em que celebramos a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio, agradecemos a vida deste humilde bispo, que amava os padres e ficava feliz do encontro mensal que tinha com o presbitério. Nossa relação de padres e bispo era sinodal, fraternal, respeitosa e de escuta. Em momentos de decisões, foram inúmeras as votações propostas por ele, pois acreditava num presbitério e numa Igreja dialógica e de comunhão. E respeitava o desejo da maioria.
Pastor preocupado com seu presbitério, pai com pulso firme, quando necessário, mas de um coração do tamanho do mundo, repleto de ternura e misericórdia. Pai que chorava e sorria com seus padres e com o seu rebanho. Era difícil dizer não à um pedido de Dom Angélico, pois dizer sim a ele, era certeza de um ofício dinâmico e intenso. Homem que aglutinava e movimentava multidões. Como vamos nos esquecer das grandes celebrações diocesanas? Desta catedral repleta das nossas comunidades? Angélico era vibrante! Dizia que o maior título que havíamos recebido no batismo era o de ser chamados de irmãos. E a todos ele se dirigia: meu irmão, minha irmã!
Dom Angélico, foi amigo, pai, pastor e bispo. Como vamos nos esquecer da sua presença sempre fraterna e amiga nos momentos celebrativos e nos momentos de dores na vida dos seus padres e do seu povo? Ah, que falta vai nos fazer seus telefonemas inesperados: Como você está meu irmão? No dia do nosso aniversário natalício e presbiteral seu telefonema era garantido. Querido pai, continue se lembrando de nós no céu!
O seu ministério episcopal era sinal de amor pelo próximo e por este, como o servo sofredor, ofereceu seus dias como oferenda agradável à Deus. Agradeço ao Senhor, por ter acreditado em mim, ordenando-me o primeiro padre desta diocese. Lembro-me como hoje, através de uma ligação inesperada numa tarde nublada em São Paulo ele me disse: meu irmão venha para Blumenau. Como Samuel eu e muitos aqui presentes, dissemos a ele como o profeta falou a Deus: aqui estou Senhor! Viemos na fé e na alegria de poder servir, pois o ato extraordinário de Deus, passou segurança, carinho e amor, amor com o qual Dom Angélico, nosso Pai espiritual, nos guiou e deu exemplo de vida.
Hoje sepultamos o nosso Dom, daqui há dois dias completará 25 anos de sua nomeação como primeiro bispo de Blumenau, 19 de abril. Como último ato de amor quis retornar e repousar em Blumenau. Abriu mão de Saltinho onde nasceu. Como vamos nos esquecer de Dom Angélico recitando e cantando: “Piracicaba que eu adoro tanto, cheia de sonhos e encantos”? Renunciou a terra onde mais serviu e amou, a bela São Paulo para entre nós permanecer.
Receber seu corpo para ser sepultado nesta catedral, é um privilégio para nós, pois a sua história e memória permanecerão e nada apagará o caminho do precursor desta diocese. Aqui se fará memória de um homem de profunda oração: como não lembrar de sua célebre frase: Quem não reza vira bicho e bicho feio. E ele completava com seu bom humor: “e existe tanta gente feia por ai”. Um homem misericordioso, sabia acolher o seu rebanho, sem distinção, com amor e misericórdia se voltava principalmente aos filhos pródigos e dava a eles as sandálias do novo caminho. Aqui a história nos lembrará de alguém que amou a Igreja, não foi indiferente e nem omisso à vida do seu rebanho, mas presença marcante e vibrante, lutou pelo seu povo. A sua trajetória de vida por onde passou foi compromisso com o Evangelho. Aqui agora jaz para a memória um pastor apaixonado por Jesus.
Palavras são insuficientes para descrever e agradecer esse Bom Pastor que foi sândalo em nossas vidas. Obrigado Dom Angélico por nos ensinar através da sua vida que Deus é amor! E que o céu pertence aos bem-aventurados! Descanse em paz, dom de Deus!
Pe. José Carlos de Lima
Blumenau, 17 de abril de 2025
Nota: Padre José Carlos da Diocese de Blumenau foi o primeiro Padre Ordenado por Dom Angélico em Blumenau
